segunda-feira, 26 de março de 2018

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“O teu sorriso apagava a luz do dia”

Aproximei-me, estavas de costas e não me vistes, quando sentiste as minhas mãos nos teus ombros, voltaste-te e o teu sorriso apagava a luz do dia.
Abracei-te com tanta força que espantado perguntaste:
- Aconteceu alguma coisa?
- Sim, encontrei-te e reencontrei o teu sorriso e com ele o sol, a esperança que pensava adormecida.”
Permanecíamos calados, nada podíamos acrescentar. Os corpos unidos como se nada jamais os pudesse separar. As palavras não podiam traduzir a emoção, não diriam mais que a força  daquele abraço.
Caminhámos na areia branca onde o tempo começava a marcar o futuro, o nosso futuro.

Esperava a chegada do barco com ansiedade, o meu sonho que um dia levaste. Tinham passados anos, anos de espera, incerteza, desespero…mas agarrava-me à esperança, sabendo que se a largasse nunca mais encontraria forças para continuar. O vazio tomaria conta de mim e o sonho ter-se-ia partido em mil pedaços.
Acarinhei a ilusão, sequei as lágrimas e hoje chegas trazendo de volta o teu sorriso que apagava a luz do dia…

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Um telefone antigo e uma caneta Mont Blanc...




Abriu a porta a custo, tinha sempre a sensação de estar num espaço que não lhe pertencia, numa intimidade que não era sua.
A luz pálida do fim da tarde entrava pelas persianas, uma penumbra esbatia os contornos e tornava tudo irreal. Lá estava o telefone antigo na entrada. Lembrava-se ainda de ouvir a campainha tocar com estridência, até que alguém perguntava “Quem fala faz favor?” e depois algumas frases e sempre a terminar “Eu não esqueço, não se preocupe, eu dou o recado”.
A casa mantinha-se fechada, cheia de segredos que ninguém queria desvendar; só ele se atrevia a abrir portas, entrar na biblioteca, escolher um livro, às vezes dois. Escrevia sempre no caderno os títulos e os autores.
Era uma espécie de ritual, tirava do bolso a caneta preta que herdara do avô e com a sua letra inconfundível e quase indecifrável tomava nota.
Hoje estava perdido, a irrealidade do lugar, a sua própria irrealidade, não lhe permitia escolher fosse o que fosse.
Sentou-se à secretária e começou a escrever:
“Estou aqui sem conseguir perceber porque volto a esta casa, onde já nada é vivo, mas nada ainda morreu na minha memória. Queria que estivesse aqui. O espaço está cheio da sua ausência, e eu estou à espera que o vazio se preencha com a sua voz e que eu possa perguntar: mas porquê, mas porquê, a vida, a morte, porquê avô?
Adivinho a sua reposta:
“Sabes, o belo da vida é que não é eterna. Já pensaste no peso da eternidade?”


terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Balanço - perdas e ganhos


Os anos não acabam, continuam suavemente no decorrer dos dias que marcam o início de um novo ano. Nós também não mudamos, apesar das promessas, dos desejos, e do entusiasmo que queremos ter ao baterem as doze badaladas.
O ano foi bom, difícil, angustiante, desgastante, feliz, infeliz? Às vezes foi tudo isso em doses moderadas, outras vezes não houve moderação e os tempos de dor acentuaram-se de tal maneira, que todo o resto se desvaneceu em cores pálidas. Não gosto de falar de sentimentos tão íntimos como ausência, perda, vazio, tenho a sensação de estar a fazer uma espécie de strip tease sentimental e que deveria ser capaz de resolver essa complexidade dentro de mim, sem precisar de escrever ou falar do que se passa quando reconhecemos que o vazio não será preenchido, e que a ausência será para sempre. Talvez eu esteja assim a estender a mão a alguém, a querer sentir o calor e a força de outra mão, os dedos entrelaçados nos meus e as lágrimas a caírem sem pudor.
Foram muitas perdas já, fui ganhando e perdendo resistência sem saber bem até quando podia, até quando era capaz. E no entanto aqui estou, viva ainda, sem amargura, sem medo, procurando analisar o que permanece intacto dentro de mim, o que merece a pena preservar, o que merece a pena eleger e cultivar, esperando talvez de forma quase irracional uma recompensa que não sei qual é.
A dor é um percurso solitário, ninguém do outro lado pode medir, pesar, avaliar. A dor é nossa, como também é nossa a capacidade de deixar que cicatrize, mesmo quando o processo é longo e doloroso. Tenho pensado muito nisso e reconheço na minha resiliência uma característica que me protege da melancolia e da solidão. Sou ainda capaz de rir e considero o sentido de humor uma espécie de privilégio que me permite dar um passo em frente e continuar.


“Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade. O essencial faz a vida valer a pena, e, para mim, basta o essencial!” Mário de Andrade 

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

"REQUIEM"



Chegou demasiado tarde. O destino não esperara por si. Olhava para trás procurando encontrar razões para aquele desencontro… ambos tinham sido capazes de ultrapassar barreiras sociais, familiares e agora quando o caminho parecia livre e que poderiam caminhar lado a lado, olhando o horizonte e vivendo o futuro que tantas vezes lhes preenchera os sonhos, o desejo, a imaginação, agora, chegara demasiado tarde.
O barco afastava-se lentamente, deixando atrás um sulco branco de espuma que se desfazia, como se desfazia a esperança, o sonho, a vida.

Não tinha mais força, deixou-se cair na água revolta do mar…

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

“….Cada palavra tem o dever de não ser nenhuma coisa.” Mia Couto


“Parole, parole, parole…” lembro-me da canção. Palavras que largamos sem sentido, que enchem o espaço e desaparecem segundos depois. Palavras que não exprimem a verdade, porque não queremos que ninguém diga a verdade. Recordo a peça “Huis Clos”de Sartre que vi em Paris há muitos, muitos anos, agora quase tudo foi há muitos, muitos anos. Três, seriam mais? Três personagens fechados num quarto, dizendo mentiras que queriam que fossem verdades e quando realmente a verdade apareceu percebem que estão no inferno.
O inferno da verdade, das palavras que não escondem nada, que estão ali ameaçadoras, acusadoras, não há benevolência na verdade. “Nua e crua” por alguma razão a verdade amedronta, fugimos dela porque nos sentimos incapazes de viver só com ela. A mentira é aquilo que muitas vezes queremos ouvir, aquilo que nos permite continuar, afastamos a verdade com um gesto brusco e deixamos que a mentira nos possua.

Palavras que esquecemos, que não têm cheiro nem sabor, ou têm? Palavras que não são palpáveis, ou são? Agarramos a palavra, seguramos com força e quando abrimos a mão não está lá nada, nada. Palavras que exprimem emoções, raiva e impotência, palavras carinhosas que nos acariciam, que tocam o nosso corpo e agitam a nossa consciência …e depois impiedosamente nos deixam vazios. 

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Zeppelin ou Balão Voador?


O meu pensamento não me pede autorização, viaja para onde quer e aterra sem paraquedas onde lhe apetece. Às vezes o choque é brutal, de repente apaga quarenta anos da minha vida e lá estou eu a chegar ao Brasil, a instalar-me em S. Paulo, a sentir-me a pessoa mais infeliz do mundo e a perguntar-me até à exaustão, “o que estou eu a fazer aqui, o que estou eu a fazer aqui, onde estão os meus hábitos, as minhas referências, os meus amigos…onde estou eu?” As possibilidades de voltar são mínimas, a capacidade de me adaptar reduzida a zero porque não sei onde estou. Não reconheço a língua, não encontro o meu ritmo, estou perdida e triste. Só tenho um pensamento que ocupa todo o espaço, “quero ir-me embora, quero sair daqui”. Estou aprisionada numa cidade gigantesca onde não consigo encontrar nada que me seja familiar.
A impossibilidade de encontrar uma saída obriga-me a criar uma rotina, “uma rotina de sobrevivência”. Talvez assim eu seja capaz de reencontrar alguma normalidade e de me reconciliar comigo própria.
Logo a seguir o balão voador arrasta o meu pensamento para longe e aterra suavemente em Florença. A minha primeira viagem a Itália, o Brian que não sabia uma palavra de latim mas que era capaz de “parlare italiano” muito melhor do que eu, explicando as razões porque tínhamos chegado mais tarde do que o previsto, que estava fora de questão procurar outro hotel e conseguindo convencer o director com os seus argumentos ingleses certamente temperados com orégãos e manjericão. Eu deslumbrada, e já na rua “dopada” pela beleza de Florença ao cair da noite, gritando a plenos pulmões “thank god, I am alive and I am here” e o Brian com a sua fleuma britânica a perguntar-me “are you crazy darling?”, “Yes I am crazy”. Essa extraordinária sensação de deslumbramento que se manteve inalterada sempre que voltámos a Itália. “Yes  I am crazy”!
Mas o balão levanta voo novamente e chego ao Rio de Janeiro no Carnaval. Vou desfilar mais uma vez na Portela. Fazemos parte da equipa da frente, somos os Pássaros Negros. A carnavalesca sou eu e os meus amigos queridos John e Olga, e lá enfiamos as fantasias apertadas de lycra preta, as botas douradas e o chapéu de plumas negras, o delírio total, as mil gargalhadas, os arames da gola quase nos estrangulam, o samba entra nas nossas veias, durante umas horas somos cariocas, carregamos nos rrs e divertimo-nos muito!
Finalmente o meu pensamento cansou-se, enfia-me num zeppelin e aterro em casa. Reconheço os cheiros, as sombras, a luz, os contornos, as pessoas, o vozear, a água do rio, sinto uma doce e calma sensação de pertença.


terça-feira, 14 de novembro de 2017

Cachupa e bolo inglês



Viemos para Lisboa quando rebentou a II Guerra Mundial. A companhia inglesa que explorava as minas de lousa, perto de Valongo, e onde o meu pai era director, encerrava as suas actividades, enquanto os homens eram chamados a alistar-se no exército de Sua Majestade, o rei Jorge VI.
Lembro-me da viagem de volta, com o Ford atulhado de tudo o que não coubera na camioneta, do gato preto de nome Gepeto, e do cão branco Bouboule, que calmamente e em plena harmonia, dormiam no chão do carro. O Bouboule, herdara o nome de um cómico francês da época, e que o meu pai francófilo e anglófilo de alma e coração, lhe tinha atribuído. o Bouboule viveu até aos dezoito anos, perseguindo ferozmente ratos e gatos, excepção feita ao Gepeto de quem era amigo do peito.
Uma vez instalados no Bairro Azul, passámos a ter em casa, um bando de mulheres que faziam parte da nossa organização familiar. A minha mãe, que se devia sentir poderosíssima, comandava, bastante mal, todas essas mulheres, necessárias para que o lar, mais azedo do que doce na maioria das vezes, funcionasse condignamente. Lembro-me das criadas, muitas Marias e algumas Rosas, das mulheres-a-dias que teimavam em chamar-se Conceição, da D. Alice costureira e da tia Júlia.
A tia Júlia era meia-irmã da minha querida avó Maria, mãe do meu pai, e filha mais nova do meu bisavô Francisco, um comerciante de sucesso na cidade do Mindelo, capital da ilha de S. Vicente. O avô Francisco tinha chegado a S. Vicente, quando a ilha se tornara escala obrigatória a meio do Atlântico, para abastecimento de carvão de navios de todo o mundo. O Porto Grande fervilhava de actividade, e de nacionalidades, e a casa comercial do meu bisavô ia de vento em popa. O Mindelo era, à sua escala, uma cidade cosmopolita, com uma vida cultural bastante intensa, e onde a influência inglesa se fazia sentir em vários aspectos da vida social e desportiva. Até um campo de golfe havia na altura. Em 1874 eram amarrados os cabos submarinos de telégrafo da Western Telegraph Company, ligando assim S.Vicente à Madeira e ao Brasil, e poucos anos mais tarde a África e à Europa.
A Julinha, como era chamada por todos os parentes mais próximos, nasceu e cresceu no Mindelo, numa casa grande e abastada, mimada e estragada pelo pai Francisco que lhe permitia todos os caprichos. Vaidosa, senhora do seu nariz, petulante, recusara com altivez todos os pretendentes que lhe tinham aparecido, e viera para Lisboa, dizia-se à boca pequena, na esteira de um amor ilícito, e acabara, obviamente, solteirona. Teria uns cinquenta e poucos anos, quando passou a fazer parte do grupo de mulheres que povoaram a minha infância.

Tinha sido uma mulher bonita, de feições harmoniosas; as fotografias da época mostram-na com o cabelo apanhado com graciosidade, blusas brancas cheias de pregas e folhos, uma cintura de vespa e um olhar altivo e mordaz que conservou até ao fim.
Voluntariosa, impetuosa, e pouco previdente, a família acusava-a de ter deixado o pai, velho e doente, para seguir mais um dos seus caprichos, a tia Júlia tinha, quando eu a conheci, pouquíssimo dinheiro; vivia numa parte de casa alugada, próximo do Saldanha, mas isso não abalara o seu orgulho, que se mantinha inalterável.
Duas vezes por semana vinha passar o dia a nossa casa. Chegava de manhã, instalava-se na marquise, junto à sala de jantar, e entretinha-se a bordar, a fazer tricot ou a ler o jornal. Almoçava, tomava chá, jantava, e depois ia a pé, tranquilamente, para casa.
Não era meiga, não gostava de crianças, não brincava comigo, nem me contava histórias engraçadas, mas também não procurava enfiar-me coisas idiotas na cabeça, como uma menina que se preze tem que saber bordar, ou costurar, ou qualquer outra coisa que se identificasse com a imagem da boa dona de casa, e constituísse o modelo a ser seguido, por qualquer ser do sexo feminino, que quisesse ser considerado digno de respeito.
Na realidade, a tia Júlia nunca tinha sido boa dona de casa, vivera cercada de serviçais que satisfaziam as suas vontades, mandava e desmandava a seu belo prazer, e mesmo sem um tostão, nunca a vi ter um gesto de humildade ou submissão. Punha defeitos em tudo; a carne não estava bem assada, as fatias do bolo eram demasiado finas, o arroz estava colado, as laranjas eram amargas. O meu pai, sobrinho dela, irritava-se imenso e ás vezes dizia algo mais ríspido, mas isso não parecia incomodar a tia Júlia, que continuou a passar os dias em nossa casa, até finalmente, ir para um lar da terceira idade.
De vez em quando a minha mãe tinha umas ideias malucas, e lembrava-se de pedir à tia Júlia para fazer bolo inglês ou, quando alguém que vinha de Cabo Verde tinha trazido na bagagem, feijão pedra, favona e outros ingredientes indispensáveis para preparar a cachupa.
Instalava-se então o caos na cozinha; a tia Júlia dava ordens, voltava aos seus tempos de glória da casa grande do Mindelo, e punha as Marias, ou as Rosas do momento, completamente ensandecidas. “Maria põe o feijão de molho, Rosa bate as claras em castelo, Maria unta a forma, Rosa acende o forno, Maria bate a manteiga com o açúcar, Rosa depena o frango, Maria prepara a abóbora e a batata doce…”. A minha mãe dizia que a Julinha era impossível, e que nunca mais lhe iria pedir para cozinhar fosse o que fosse, até à próxima, claro.

Penso que a minha mãe, que adorava o Carnaval, achava graça aquele folclore que quebrava a rotina e a monotonia, e que finalmente resultava num excelente bolo inglês, ou numa exótica cachupa.
O bolo inglês tinha que ter todos os ingredientes, as frutas cristalizadas, as nozes, as amêndoas, as uvas passas, o açúcar amarelo, a manteiga, o brandy. No tempo do Mindelo, a tia Júlia, mantivera relações de amizade com algumas das famílias inglesas e teria sido certamente uma das suas amigas, que lhe deu a famosa receita do bolo que ela iria repetir, sempre que alguém, que não estivesse no seu perfeito juízo, lhe desse essa oportunidade.

Bolo inglês e cachupa não eram compatíveis; ou um, ou outro. Não havia tachos, nem Rosas, nem Marias que aguentassem; nem mesmo a minha mãe se atreveria a tal ousadia.
Ficou, na minha memória gustativa e olfactiva, o sabor amanteigado do bolo inglês, o cheiro caramelizado das frutas cristalizadas; da cachupa e o seu gosto exótico e tropical, os legumes adocicados, os enchidos e as carnes cozidas que se desfaziam na boca. Ficou desperta a minha curiosidade, e a vontade de experimentar novos sabores, de viajar para terras longínquas através de especiarias, frutos, cheiros e gostos diferentes.

Devo à tia Júlia, ter-me aberto a porta de um mundo rico e saboroso, sempre possível de ser renovado, sempre possível de ser reencontrado. Devo à tia Júlia, a quase incapacidade de me disciplinar perante os tachos e panelas que vou sujando e usando sempre que início uma nova viagem gustativa.